Passaram-se já, quase dois anos desde que cheguei de Lisboa. As saudades agora doem menos... agumas feridas continuam abertas, mas já não magoam tanto. Penso que estou num estado de apatia a todas as coisas à minha volta. A felicidade e alegria de viver que eu sentia em Lisboa abandonaram-me e ficaram perdidas algures em alguma das ruas ou avenidas por onde eu gostava de andar... ou foram levadas nas folhas de plátano daquele outono em que me vim embora. Aqui tudo é feio, não tem sentido, não tem valor para mim. Tenho poucos amigos, tornei-me ainda mais exigente em relação às pessoas, aos meus valores... nada é bom demais para mim. Aos poucos vou tentando readaptar-me, mas a falta de palavra das pessoas, o não cumprimento de horários, as mentiras descaradas... tudo me chateia, tudo me magoa... sinto-me um peixe fora d`água..
A chegada do Manuel (ex-marido) foi uma das coisas que irritou-me imenso... qualquer outra mulher sentir-se-ia lisonjeada por ter um homem a correr atrás de si, a atravessar o oceano tanas vezes para a ver... a mim, irrita-me. Por ele deixei o meu país uma vez, segui-o de olhos fechados, fiz tudo o que podia para tentar ser feliz e fazê-lo feliz... passei por momentos que pareciam nunca mais acabar de tão dolorosos que eram. Por ele, aprendi a amar outro continente, outro país, outro povo, outra cultura... mas nunca foi o suficiente...
Por causa dele, tive que deixar tudo o que eu havia aprendido a amar, tudo o que eu havia construído em relação à novas amizades, um trabalho estável... toda a vida que tanto me custou a reconstruir... por causa dele tive de quebrar o meu mundo em pedaços e não deixar nada para colar.
Agora ele volta, pensando que tudo se pode compor... que tudo pode ter um recomeço... infelizmente não contava com a minha forte personalidade, determinação e muita amargura... muito sofrimento e mágoa no meu peito... mas são estes sentimentos que me fazem seguir em frente. não me deixar levar por palavras mansas. Nem dele, nem de ninguém.
Amor... é uma palavra que serve apenas para ser usada em relação ao que sinto por mim e pela minha filha... o resto... é mesmo resto...


